quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Martírio - Asterix no banco dos réus (making of)

                                                                              


MAKING OF   

Já faz certo tempo que escrevi uma história similar envolvendo o Pepe Le Gambá, em que ele é cancelado e depois morto por um bando de militantes da Black Lives Matter. Agora resolvi escrever uma história similar, envolvendo o Asterix e o Obelix, depois que soube de um caso medonho ocorrido no Canadá.

O caso é o seguinte: esses dias descobriu-se que no Canadá, há dois anos, queimaram 4716 livros e revistas em quadrinhos que até então estavam em posse de uma rede de 30 colégios da região sudoeste do estado de Ontario, sob o pretexto de combater a discriminação em relação aos povos indígenas locais (o Canadá tem um séria questão envolvendo os povos indígenas locais, visto que ultimamente andaram descobrindo tumbas de crianças indígenas situadas próximas a colégios internos. Túmulos esses que não têm nomes).

E entre esses livros e revistas queimados se incluem enciclopédias, romances e quadrinhos. E entre os quadrinhos, edições de obras de personagens icônicos tais como Tintin, Asterix, Lucky Luke e Pocahontas.

É um caso que me enoja profundamente. Ainda mais para mim, que sou fã de longa data das histórias do Asterix e do Obelix e que até já comprei livros encadernados deles há alguns anos. E some-se a isso o fato de que uma das incitadoras dessa queima de livros, a senhora Suzy Kies, a autoproclamada “guardiã” do “saber indígena” e copresidente da Comissão dos Povos Indígenas do Partido Liberal (o partido ao qual pertence o premiê Justin Trudeau), vem a tempos fazendo demagogia em torno da questão indígena canadense. Visto que ela por anos alegou ter ancestralidade indígena e recentemente descobriu-se por meio de uma investigação da Radio Canada que ela na verdade não tem. Ou seja, o típico sujeito que adora fazer demagogia em cima dos indígenas (algo similar ao que o Moe faz naquele episódio dos Simpsons em que ele tem um bar gay).

Depois desse episódio lamentável, certas militâncias também andaram queimando Igrejas no Canadá (que vem embarcando na onda do politicamente correto desde que Justin Trudeau [recentemente reeleito] tornou-se primeiro ministro – a propósito, tenho um primo que mora e trabalha lá e ele não vai nem um pouco com a cara dele) depois das descobertas das já citadas tumbas anônimas de crianças indígenas. E ai eu lanço a seguinte pergunta: os problemas que atormentam os indígenas canadenses hoje serão resolvidos queimando Igrejas e livros, caçando pelo em ovo através de uma iconoclastia bem a la Estado Islâmico (que destruiu monumentos como o leão de Palmyra na Síria)? Óbvio que não.

Fazendo uma analogia, isso é que nem chamar favela de comunidade, índio de povo originário e outras gambiarras linguísticas similares: uma operação cosmética que não resolverá situação concreta alguma. Inclusive pode fazer com que a resolução da questão indígena no Canadá fique mais longe de ser resolvida.

Esses antifas e Black Lives Matter da vida queimam Igrejas e livros e os indígenas canadenses continuam a sofrer de problemas como falta de acesso à água e outros elementos vitais ao modo de vida deles e com suas terras sendo invadidas por corporações bilionárias do mesmo jeito. Resumindo a ópera, esse tipo de operação é como um lava rápido: lava-se o carro por fora, mas não por dentro.

E, além disso, há outro motivo que me deixa consternado com isso: levando em conta que tanto a esquerda quanto a direita brasileira (em especial os setores mais mainstream) adoram copiar o que vem da América do Norte e da Europa ocidental, quem não me garante que isso lá na frente não vá incentivar iniciativas iconoclastas similares por aqui, por meio da queima de livros de autores de séculos passados tais como Francisco Adolfo de Varnhagen, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Monteiro Lobato e outros tantos, sob o mesmo pretexto de combate ao racismo e outros similares? Afinal, essa mesma gente andou incendiando estátuas de figuras históricas como Pedro Álvares Cabral e Borba Gato sob um pretexto similar e há tempos vem falando em reescrever e até mesmo censurar as obras de Monteiro Lobato por suposto racismo e eugenismo nas obras dele. E isso não passa de uma brincadeira de caça-fantasmas, no fim das contas.

Um comentário:

  1. Cada vez mais , a intolerância prospera .
    Triste e lamentável!

    Não sei onde ouvi essa frase , mas ela cabe aqui:

    Podem se queimar livros, mas não podem se queimar as ideias.

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